Casal Parental?

Consigo relacionar-me com o princípio de “começar de novo” e não deixar que as relações (ex)conjugais se imiscuam e prejudiquem os papeis parentais. Mas… Casal Parental?


«Matar o Casal Conjugal, para fazer nascer o Casal Parental»


A primeira vez que ouvi esta frase senti uma onda de choque, com epicentro no coração. Eu não vi, mas estou certa de que ruborizei e respirei fundo. Muito fundo. Mesmo muito fundo. A zanga estava à espreita, o pensamento não era claro, a perplexidade impôs-se. Não conseguia dar sentido ao que sentia, também não me fazia sentido o que ouvia.

Consegui sorrir e, tentando brincar, voltei a rimar conjugal, com parental e com uma obscenidade terminada em “al”. A rima ficou poderosa, no contexto daquele jantar entre amigas, ainda deu para rirmos e para me apaziguar.


A noite foi muito divertida, falámos de coisas sérias e de coisas parvas. A maioria de nós é divorciada ou separada, mas também estavam as casadas (uma!, a outra faltou). Dessa noite, ficou na memória a alegria desta amizade íntima e a frase a ribombar na minha cabeça.


De início só me zangava e perturbava. Por isso, deixei ficar… deixei que fosse surgindo e, curiosa, assistia aos pensamentos e sentimentos que apareciam. A rima que inventei também continuava a acompanhar a frase e, mesmo sozinha, tinha vontade de rir. Acho que esse sorriso foi ganhando espaço e leveza para conseguir pensar um pouco melhor.


Passaram-se alguns meses.


Convivo diariamente com a separação, quer pessoalmente, quer profissionalmente. Não é difícil de imaginar o número de oportunidades que esta frase tem para surgir. Foi surgindo. Eu fui assistindo e sorrindo.


A zanga encolheu-se. A perplexidade desvaneceu-se. Chegou a familiaridade e a clareza.


«Matar o Casal Conjugal, para fazer nascer o Casal Parental»


Hoje percebo o que me perturbou e já consigo perceber o que poderá significar.


Acreditando que o conflito conjugal prejudica a relação entre dois pais separados, impedindo-os de se poderem relacionar saudavelmente (para proporcionarem uma experiência familiar equilibrada e harmoniosa aos seus filhos), imaginar “matar” os pais que outrora tiveram na vida um do outro, poderia permitir começarem uma relação nova… limpinha, virgem, apagar a sua história de mágoas, curar as feridas… “matá-los” e depois “ressuscitá-los” na sua forma parental. Formando um novo casal, mas apenas parental, livre do passado e do ressentimento.


Ok. Eu percebo. Consigo relacionar-me com a intenção por detrás. Com o princípio de começar de novo e de não deixar que os papeis conjugais se imiscuam e prejudiquem os papeis parentais. Consigo imaginar alguém que trabalha e se dedica há tanto tempo ao tribunal de família, que assiste a conflitos acesos, doentios, a crianças reféns, quer no lado de cada uma das barricadas, quer no meio de ambas… perceber que não há um sítio seguro para uma criança estar nesse cenário.


Mas… esta frase não serve só o cenário bélico…


Matar o casal conjugal, não serve para tudo. Há muitos pais, que exercem a sua parentalidade não conjugal, que nunca foram um casal formal. Não têm um casal conjugal para matar. Há outros, que já mataram o casal conjugal há muito, muito tempo (alguns, muito antes da separação). E há outros que não querem ver o casal morto, por isso mantêm acesso o pseudo conflito porque, na realidade, o ódio não é o oposto do amor. E quando não se pode ter o objecto do amor, amando, mantem-se odiando. Para estas separações ambivalentes, a proposta do casal parental adivinha-se como mais uma ratoeira para enredar as pessoas numa idealização daquela relação e manter o casal («ok, já não é conjugal mas ainda somos um casal!»). Por outro lado, para quem não quer ser, de maneira nenhuma, casal nenhum com aquela outra pessoa, dificilmente manterá a disponibilidade para falar sobre parentalidade no pressuposto do “casal parental” («Posso ser muita coisa mas não me façam ser casal com esta pessoa. Por amor da santa! Posso ser multibanco, posso ser motorista, posso ser central telefónica e agenda… mas casal, nunca mais!»).


E quando as famílias são reconstruídas? Isto soa estranho. A sério, como fazemos isso!? «A Maria (divorciada) casou-se pela segunda vez com o Manuel (também divorciado), cada um deles tem um filho da relação anterior. A Maria e o Manuel são um “casal conjugal”. Enquanto o são, a Maria faz parte do “casal parental” com o António (o ex) e o Manuel faz parte do “casal parental” com a Antónia (a ex). Não são casais a mais??? E quando nascer o Joãozinho, fruto desta nova relação? Como é que a Maria e o Manuel vão fazer? Mantêm-se casal conjugal, nunca chegando a ser parental? Ou será que é cumulativo?». Para mim, pessoalmente, que sou uma “Maria”, o conceito levanta-me algumas dúvidas e conflitos internos. Não consigo deixar de achar que é como se fosse antagónico; ou se é uma coisa ou a outra; um dos casais tem que “morrer”. Também me incomoda ter que ser casal (ainda que parental) com alguém com quem não quero ser casal. Acredito que podemos continuar a ser pais dos nossos filhos sem que tenhamos que ser casal (de qualquer natureza). Tal como podemos ser um casal conjugal e parental, em simultâneo.


Numa fase inicial da separação, há muitas coisas que naturalmente vão morrer, outras vão nascer, outras vão-se transformar…


Felizmente a grande maioria dos casos as coisas correrem pelo melhor. As pessoas, mais cedo ou mais tarde, reinventam-se na nova relação, sem pressa de ter que ser casal parental, e constroem novas formas de se relacionar e comunicar, novas rotinas e valores. Destes, uma parte, chamados famílias em stress, podem beneficiar do apoio de profissionais, que os orientem e apaziguem. Mas as coisas vão correr suficientemente bem. (…tal como nas outras famílias. Não sou, com certeza, a única a ver filhos de pais que vivem juntos, numa conjugalidade e parentalidade pobres ou desastrosas).


Felizmente, apenas uma minoria, com questões de personalidade ou relacionais patológicas ou pouco saudáveis, constroem os tais cenários bélicos e destrutivos. Nestes casos, será que estes termos ambíguos são uteis? O foco na relação que não está a funcionar, colocar demasiada energia e relevância no que está a falhar, no que é difícil, ajudará a criar uma estrutura orientadora do comportamento?


E se o foco fosse para o seu papel de pai/mãe e para o que a criança precisa? Se a energia fosse para a relação parental? Será que ganhava tração para fazer as mudanças necessárias, com o foco e a motivação na pessoa e relação que mais importa (@ filh@)? Será que ganhava disponibilidade mental para o que quer construir, em vez de manter o ónus da sua parentalidade na relação com o outro progenitor?


Ás vezes (muitas vezes) não se consegue o ideal. Como seria se conseguisse uma relação suficientemente pacífica, para não serem necessárias barricadas e cada um pudesse construir a sua relação com a criança. Sim, não seriam grandes comunicadores, deixavam o contacto e a logísticas no mínimo… não seria esse um bom ponto de partida (ou de chegada!) para harmonizar as crianças com cada um dos seus pais?


Também não seria desejável perceber se há um elemento cujas circunstâncias psicológicas, a personalidade, o impeçam de conseguir sequer estes mínimos?


Tenho visto crianças a retirarem da relação com os pais/as mães aquilo que eles não lhes conseguem dar; estas crianças e jovens são realmente excepcionais, conseguindo obter da mãe/do pai o melhor que têm, mesmo quando não o dão.


Pedir o impossível, às vezes (quase sempre) é pedir demasiado. Mas entre o ideal e o impossível, há um mundo inteiro de possibilidades; há um futuro.

Por Mafalda Correia