Não há castigos

Há coisas que não me fazem sentido e os castigos são uma destas coisas.

Quando a criança tem um comportamento mais desafiante ou, se quiser, quando a criança se “porta mal”, é quando mais precisa de nós. Está a sentir algo que não entende bem e a pedir ajuda para avançar.

Além disso, a criança não É o seu comportamento. A criança NÃO É mal-educada, nem É mandona, nem É birrenta. Quanto muito, a criança ESTÁ a mandar ou ESTÁ a fazer uma birra ou a fazer algo que de acordo com os meus padrões ou os padrões culturais onde me insiro não me parece correto ou adequado. Trata-se portanto de um julgamento sobre aquela situação e, mais ainda, de um julgamento pelos “meus olhos”. Os “olhos” de outra pessoa terão com certeza uma outra perceção da mesma situação.

Voltando aos castigos…

As crianças mais pequenas não percecionam o castigo. Pelo que, provavelmente, se largarem o comportamento desviante não será por terem entendido que estão a “fazer mal”, mas por uma questão de medo do “castigo”.

Então, o castigo pode ter esse efeito de amedrontar. E é isso que se pretende?

E ainda, voltando ao comportamento, quando a criança se “porta mal” escolhe castigar? Ou premiar o “bom comportamento”? É que a mesma ideia pode ser transmitida sob a forma de castigo ou de prémio. Um exemplo: Se te portas mal, não jogas tablet! Se te portares bem, podes jogar tablet!

Será então o prémio uma forma melhorada do castigo? E os prémios e os castigos funcionam a médio e longo prazo?

Com o tempo, o castigo perde força e deixa de ser persuasivo, porque a criança já não liga ao castigo e até já sabe o que vem a seguir e que pode continuar no mesmo registo, com o mesmo castigo… e o prémio vai ganhando força e ficando cada vez maior, porque primeiro era uma prendinha, depois passa a uma prenda e com o crescimento da criança vamos passar a prendonas e exigências!

Além disso, e sobretudo, o castigo não responsabiliza a criança pelo comportamento.

O que acontece quando eu, adulto, me “porto mal”?

Assumo a responsabilidade do meu comportamento ou, se deliberadamente não o faço, pelo menos sei que posso fazê-lo.

Em vez do castigo ou do prémio, experimente responsabilizar a criança e naturalmente surge uma consequência daquele comportamento. Uma consequência lógica, como por exemplo, se a criança calçar sandálias no inverno, terá frio ou molhará os pés na chuva e poderá consequentemente ficar doente por isso e não poder ir à escola brincar com os amigos.

Acredite que resulta melhor que o castigo e que “melhora” muito o comportamento das crianças. E sobretudo melhora muito a colaboração e a conexão entre todos.

Um dia, o meu filho mais velho disse-me:

“Oh mãe, se eu falar durante a aula de ginástica fico de castigo.”

“A sério? E que castigo é esse?”, questionei.

“Vou para o fim da fila ou fico 5 minutos sentado na bancada”, contou-me.

“E como te sentes?”, continuei.

“Chateado!”

“E então, o que podes fazer da próxima vez?”

“Não sei…”

E olhou para mim, com os olhos a sorrir, “Oh mãe, na nossa casa não há castigos, pois não?”

da facilitadora

Rita Duarte

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